Peça de teatro
- Precisa fazer essa cara?
- Desculpa. Você tem razão. Se eu vim até aqui, não vale a pena fazer careta, certo?
- Eu só queria que você me ouvisse.
- Pois diga. Sou toda ouvidos.
- Não é nada disso que você está pensando.
- Mas eu não tô pensando nada. Aliás, não foi você quem disse que eu era uma pessoa que você jamais iria querer na sua vida de novo?
- Disse, mas…
- Mas então por que você me chamou aqui agora?
- Você tem sempre que tornar as coisas mais difíceis do que elas já são?
- Ah, sim. Me desculpe. Esqueci que é muito mais fácil virar as costas pros outros quando eles estão por baixo. Se quiser, eu posso levantar e sair. Aliás, você conhece bem essa ação, né? Foi exatamente isso que você fez quando era eu quem estava mal.
(LEVANTA-SE E CAMINHA PARA A PORTA)
- Minha mãe tá doente.
- Como assim doente?
- (RISO ABAFADO) Você é a única pessoa que eu conheço que faz esse tipo de pergunta quando alguém tá doente ou morre.
- Desculpe. Acho que é o hábito. O que aconteceu com ela?
- Câncer. Um dia todos aqueles sapos que ela engoliu durante a vida iam ter que dar em merda.
- Poutz. Eu sinto muito mesmo. Gosto muito da sua mãe.
- Eu sei. Ela também te adora. Sempre disse que você era a única amiga de verdade que eu tinha.
- Faz sentido. Os filhos sempre tendem a fazer exatamente o contrário do que os pais aconselham.
(CARA DE ESPANTO)
- Desculpa. Não é hora pra isso. Como eu posso ajudar?
- Não preciso de ajuda. Na verdade, só prometi a ela que um dia ia te procurar pra conversar.
- Faz sentido.
- Faz sentido?? Não foi você quem acabou de falar que os filhos gostam de contrariar os pais? Eu tô fazendo o que ela me pediu.
- Exatamente. Eu não consigo imaginar um outro motivo pra você me procurar depois de tanto tempo.
